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Leia aqui a continuação da entrevista com o IGMA Fellow doll maker James Carrington

James Carrington

Fotos de seus trabalhos no final da página.

Um fabricante de dolls de porcelana na escala 1:24 já tinha me pedido para fazer isto muitos, muitos anos atrás. Eu tenho usado moldes bi-partidos para fazer as dolls 1:24, pois como a porcelana encolhe depois de pronta, dá para trabalhar numa escala ligeiramente maior.

Eu achava que não ia conseguir fazer isto, mas descobri ser fascinante esculpir essas dolls, que é uma escultura muito mais sugestiva.

Nesta escala em que trabalhamos a profundidade dos traços, os sulcos em torno do nariz, é algo mínimo. Uma cor mais escura nestes locais realmente acentuaria o fato que há uma dobra ali. Porque no rosto humano dá para ver esta linha, mas numa pequena doll, é mais difícil. Então, use a ferramenta correta, pinte no matiz correto que isto irá ressaltar o relevo da face.

Eu estava convencido que por ter mãos grandes, eu jamais conseguiria vestir algo assim tão pequeno... Recentemente fui ‘coagido’, conduzido, a pensar que talvez fosse uma boa idéia. Passei semanas dizendo para mim mesmo: “Eu não consigo fazer isto!” Até que um dia pensei: “pelo menos tente uma vez”. Uma roupa medieval é algo mais simples de fazer. E acabei ficando chocado ao descobrir que, na verdade, deu certo!

O único problema é que 2 dias depois decidi que tinha que tentar fazer um vestido vitoriano. Eu poderia ter escolhido a fase das saias armadas, das saias simples franzidas, mas não …

Tentei uma frente drapeada e um franzido repuxado sobre uma base e, de fato, horas depois, fiquei chocado! Não só ficou melhor do que eu achava que conseguiria fazer, mas eu achei delicioso fazer isto!  

Esta escala acarreta uma ligeira mudança de técnicas, muito menos costuras, pois elas formam volumes, e um uso muito maior, embora cuidadoso, da cola.

DHB: É um grande desafio, não é?

Sim, de novo a escala… Eu sou um perito em têxteis, lido com tecidos desde a infância, alguém me lembrou hoje que eu já tenho mais de 60 anos de experiência... Mesmo assim, quando me vejo diante de algo novo, fico com medo, como qualquer novato. Sinto-me de volta ao início…

DHB: E tem que se tomar um cuidado ainda maior quanto à escala no tecido…

Isto!  E esta é uma das coisas que eu amo quando ensino, pela qual sou apaixonado. Eu vejo pessoas que chegam, pensando que vão ser os ‘bobos’ da turma, que todos vão rir, e são exatamente elas que terão esses pequenos ‘triunfos’, que me vão me fazer vibrar mais do que qualquer outra coisa.

Eu nunca saí de uma aula sem ter aprendido algo novo. Geralmente é com alguém que está fazendo isto pela primeira vez. Eu acabo criando ‘hábitos’ e talvez nem precise mais deles, mas é o que eu faço e não consigo mudar isso. E aí eles vêm com perguntas que me fazem pensar! E aí penso ‘Preciso mudar este hábito’.

DHB: Isto, na verdade, é um encorajamento para nós novatos!

entrevista publicada em 01/03/2012

Sim! O tempo todo… Eu queria fazer uma dama muito aristocrática, mas ela ‘criou’ vida própria. Ela queria ser uma prostituta, bem 'perua'. Eu tentei 'lutar' contra esta tendência dela. Acabei arrancando a roupa elegante e colocando uma roupa vermelha chamativa e fiquei tão emocionado com o resultado. E era tão óbvio.  

Quando dou aulas eu sempre digo: “traga suas idéias, porque elas vão fazer você começar. Mas se a doll ‘quiser’ ser algo diferente, não lute contra isto. Deixe rolar. Porque ‘ela’ ou ‘ele’ é mais forte que você”.  

Na primeira vez que dei uma aula, em uma grande escola, uma senhora queria criar uma personagem específica que seguraria um jarro de cerveja, mas não conseguia de jeito nenhum. Ela estava fazendo para dar de presente para a filha dela. Ela ficou tão frustrada e até deixou a doll cair. Alguém da turma olhou para a doll caída, que ficou num ângulo específico, e disse “ela é uma cantora de cabaré”. Desta vez colocamos uma peruca ruiva nela, fizemos um microfone, achamos um tecido com estampa de oncinha. E ela se transformou numa doll maravilhosa!

Às vezes, colocar a doll em que está trabalhando, e que não tem certeza de como a fará, de frente para um espelho, ou tirar uma foto dela, ajuda a mostrar o que você realmente quer fazer dela. Mas relaxe! A linda dama que você quer fazer não virá à tona até que esteja pronta. A outra personagem pode já estar pronta para surgir agora.

Às vezes eu insisto, mas já sei que não devo. É melhor colocar de lado em um canto seguro e dizer “Não sei que história você está tentando contar”. Comece a trabalhar em outra. Mantenha a primeira por perto. Guardar longe da vista é um risco, pois para trabalhar nela terá que tirar tudo para fora de novo, e isto leva tempo, aí já será tarde para trabalhar nela... tudo isso acaba desencorajando.

Eu tenho sorte, pois moro sozinho. Crio o caos por toda a parte e ninguém reclama. Se você tem que cuidar de um marido ou da família, eles tomam bastante tempo. É preciso insistir que aquele canto e aquele momento do dia é seu, para poder criar suas dolls.

DHB: Já aconteceu de você criar uma doll na sua imaginação e não conseguir torná-la realidade?

Sim. E às vezes eu olho para fotos de trabalhos anteriores e fico achando que perdi meu talento. Porque a distância daquela doll parece fazer com que ela fique ainda melhor do que como eu lembrava dela.

Eu tenho uma grande amiga que costuma falar da “doll de 10 minutos”. Ela é uma doll maker muito conhecida chamada Cat Wingler. Nós uma vez comentamos que uma doll parece linda por 10 minutos, aí você começa a analisar de novo e começa a enxergar algo nela que para você parece óbvio, mas ninguém mais consegue ver. Ela diz “se a gente vendesse aquela doll enquanto achávamos que era perfeita, ela seria perfeita para sempre e nunca mais faríamos outra”. O que nos move é a busca de maneiras de fazer a ‘doll perfeita’. É uma busca sem fim!

DHB: É bom tirar fotos do seu trabalho quando está ainda aprendendo, para depois mais tarde comparar com seu trabalho mais recente e ver o progresso?

Observe sua cultura. Estude suas raízes e aprenda a valorize-las! Aprenda a história do seu país, é algo mágico. E será mais mágico ainda para os que não conhecem esta história.

Não tenha receio de apresentar seu trabalho. Não peça desculpas pelos seus erros. Os outros não conseguem vê-los como você os vê.

Eu uma vez enviei uma doll para uma cliente e disse para ela “Não é bem o que eu queria fazer” e ela ‘gritou’ comigo e disse: “Jamie, nós não conseguimos ver dentro da sua cabeça! Nós olhamos o seu trabalho e amamos o que você realizou. Nem imaginamos que possa existir alguma outra forma dele ser feito”.  E eu amo a Sally por ter dito isto para mim! Eu compartilho com os novatos e digo: tenha confiança no que você faz. Aprenda a ser jovem e criança de novo. O risco de ser adulto é que nós achamos que há um jeito ‘certo’ e ‘adequado’ de se fazer as coisas. Você pode estar perdendo um monte de coisas mágicas e novas com isso.

Liberte-se! Divirta-se!

E lembre-se de respirar enquanto estiver esculpindo. Temos a tendência a tensionar o corpo. E os músculos desenvolvem uma memória.

Continue sempre criando e não fique muito tempo sem trabalhar. Faça um pouco por dia. Se fizer demais, começará a duvidar de si mesmo, perderá confiança. Começará a dizer “Não consigo fazer isto direito, então nem vou começar...” Todos nós dizemos isto! Adultos aprenderam hábitos muito perigosos.  

Tente, por bem ou por mal, ir a uma das grandes feiras internacionais, e ver de perto essas pessoas loucas, felizes, entusiasmadas, malucas, que amam minaturas e perceba que você acabou de fazer a melhor cirurgia plástica rejuvenecedora do mundo! Nem dá para adivinhar a idade certa destas pessoas, porque estão sempre descobrindo coisas novas, fazendo novas experiências, descobrindo uma cola nova, ou um pincel novo, e é isto que mantém as pessoas jovens!

Eu tento ensinar meus alunos a agirem como um tapeceiro turco: eles costumam cometer erros de propósito enquanto fazem um tapete. Para eles, apenas Deus cria coisas perfeitas. Se tentar criar algo perfeito, ofenderá os deuses.

DHB: Você gostaria de mandar alguma mensagem para os brasileiros?

Miseravelmente!... (risos…)

E não procure a aprovação dos outros, dê a si mesmo esta aprovação! Isto é a coisa mais divertida que já fiz na vida! Não há tempo suficiente no mundo para completar tudo o que ainda quero fazer.

DHB: E irá falhar! (risos..)

Algum dia… Porque eu adoro o temperamento latino! Eu tenho um cérebro britânico, mas um coração italiano. Eu amo os sons, os rostos do Brasil.  

É outra coisa que estou aprendendo, porque tenho dado aulas na Holanda e na Escandinávia, e estou aprendendo de novo que o rosto dinamarquês tem bochechas mais arredondadas, que a face norueguesa tem narizes menores, que os holandeses têm um formato diferente. É tão inspirador! Estou aprendendo algo novo. A gente nunca para de aprender.

Tem algo de curvilíneo no rosto brasileiro, uma plenitude, que é esta paixão... os sons são ‘redondos’, e isto também é algo incrivelmente romântico. Vocês acreditam nos seu sonhos.

Eu amo o Brasil!

DHB: Eu gostaria que você pudesse vir ao Brasil algum dia para ensinar…

Ir para a 1ª parte da entrevista.

As fotos são cortesia de James Carrington .

Ir para a 1ª parte da entrevista.